22/03/2020

Resenha F.M.C.




FUNDAMENTAÇÃO DA METAFÍSICA DOS COSTUMES
Immanuel Kant


Por fundamentação de uma metafísica dos costumes, Kant pretende estabelecer as condições de possibilidade de uma Lei Moral Universal dirigindo a ação do homem emancipado que manifesta sua autonomia a partir da razão pura prática que identifica condições a priori de sua vontade.

Para entendermos como ele fundamenta essas condições, dividiremos a análise de acordo com as partes do texto desenvolvido pelo próprio Kant, ou seja:

 Prólogo ou Prefácio Primeira Seção: Transição do conhecimento moral da razão comum para o conhecimento filosófico Segunda Seção: Transição da filosofia moral popular para a metafísica dos costumes Terceira Seção: Transição da metafísica dos costumes para a crítica da razão prática pura

Prólogo ou Prefácio


Kant apresenta seu projeto de identificação e estabelecimento do princípio supremo a priori da moralidade humana, justificando-o e definindo tanto o tema quanto a estrutura e o método a serem utilizados.

A partir da divisão que se faziam da antiga filosofia grega, Kant identifica os princípios pelos quais cada uma das divisões se baseava a fim de justificar seu projeto. Ele começa postulando que todo conhecimento racional ou é material ou é formal, isto é, ocupa-se dos objetos ou da forma que a razão, em si mesma, pode conhecê-los; independente deles.


A Filosofia Material se ocupa, na divisão da antiga filosofia grega, da Física (ocupando-se dos objetos materiais e das leis que os regem) e da Ética (ocupando-se das leis que regem a liberdade e o agir humano). Por sua vez, a Filosofia Formal se ocupa da Lógica.

A Filosofia Material possui uma parte empírica tanto se tratando da Física quanto da Ética; ambas às voltas de como a natureza é afetada pelas Leis da Física assim como a natureza afeta a moralidade humana. A Física trata de como as coisas “acontecem” e a Ética de como elas “deveriam acontecer”. Essa parte empírica dessas ciências baseia-se em princípios da experiência e é objeto da Filosofia Empírica.

Kant menciona outra parte da qual a Filosofia deva apresentar suas teorias derivando-as exclusivamente de princípios “apriorísticos”, denominando-a Filosofia Pura. A Filosofia Formal não possui parte alguma empírica, já que a Lógica é o cânone pelo qual a razão conhece o mundo, independente de qualquer experiência sensível, ela é, por excelência, Filosofia Pura. Porém, dentro da Filosofia Formal existem investigações que se limitam a determinados objetos do entendimento, que recebe o nome, segundo Kant, de Metafísica.

Dentro da Filosofia Material, então, na sua parte não empírica, Kant constrói a ideia de uma dupla metafísica, a Metafísica da Natureza e a Metafísica dos Costumes e dessa forma delimita seu objeto de estudo do qual partirá suas investigações para o encontro de sua fundamentação.

Através de uma analogia com a eficiência da divisão do trabalho nas indústrias, Kant justifica sua separação da Metafísica dos Costumes como um objeto específico que se justifica pela melhor abordagem a ser dada dessa forma, partindo então para justificar o projeto como um todo.

Seu projeto é identificar uma Filosofia Pura Moral que se desvincule da Antropologia, isto é, abstraia o caráter particular e contingente da ação moral tomada a partir do homem em sua relação com o mundo. Para Kant é inconcebível uma Lei Moral que tenha qualquer um de seus fundamentos apoiados em bases empíricas. Toda Filosofia Moral deve se apoiar somente em sua parte pura, ou seja, somente em sua parte formal e metafísica, extraída de si mesma, de forma lógica e racional.

O surgimento do ato moral precisa ter seu fundamento de forma necessária e universal, logo, livre das condições empíricas históricas, sociais, psicológicas e antropológicas. Uma ciência que busca o fundamento do ato moral precisa partir da razão pura e estabelecer seus princípios de forma absoluta, isto é, como dever imposto a uma razão que entende e tem seus próprios princípios baseados no fundamento legal da moralidade que assume.

Por fim, Kant situa o presente livro como uma fundamentação que serviria de polo de união de uma razão única, tanto pura quanto prática e partindo de si mesma a ser desenvolvida posteriormente em sua Crítica da Razão Prática (1788) e mais adiante na própria Metafísica dos Costumes (1797).

Kant termina seu prólogo afirmando que escolhera o método que melhor lhe pareceu conveniente, pois sua pretensão seria percorrer o caminho do conhecimento comum para a determinação do princípio supremo desse conhecimento de forma analítica, para depois executar o exame desse princípio para a sua aplicação no conhecimento vulgar de forma sintética.


Primeira Seção 


Transição do conhecimento moral da razão comum para o conhecimento filosófico


Kant inicia sua Primeira Seção afirmando que nada poderia ser pensado como bom que não fosse a Boa Vontade, pois só ela não teria limitações. Seria a Boa Vontade o grande regulador do bom uso dos talentos do espírito. Com isso pretende dizer que uma ação só seria moral se ela valesse por si mesma e não pelo efeito que se atinge através dela. E uma ação para valer por si própria deve ser efeito de uma Boa Vontade tomada como norma de conduta a partir de um princípio racional, incondicionado, portanto a priori.

Segundo Kant, a Boa Vontade constitui “a condição indispensável do fato mesmo de sermos dignos da felicidade”(12). Portanto só ela pode ser considerada boa ou má, pois ela agiria a partir de um princípio. Embora o senso comum tome como bons ou maus os efeitos desse princípio, nenhum conteúdo pode ser julgado dessa forma, e sim apenas o princípio que os reja e lhe dá causa. Dessa forma é a Boa Vontade que deve ser julgada, sempre por si mesma, independente de qualquer fruto gerado por ela ou qualquer proveito que a soma de nossas inclinações tirem de seus resultados.


Kant argumenta que o senso comum já toma a Boa Vontade como boa em si mesma, fato que apenas deva ser esclarecido, não precisando sequer ser ensinado. O senso comum teria a justa medida de como agir através da prática de uma razão que não precisa da teorização para estabelecer uma regra, embora a razão o possa fazer para que lhe garanta esclarecimento e estabilidade, extraindo-lhe e explicitando-lhe seus princípios norteadores.

Fosse apenas fim da moral a felicidade humana, bastaria apenas ao homem ser regido pelos seus instintos naturais para que suas ações estivessem em consonância com uma natureza que deveria dotar-nos da ordem mais adequada em nossas disposições para a finalidade a que se destina. No entanto, o homem solto aos seus instintos não sabe priorizar aquilo que lhe traga uma felicidade duradoura e entrega-se a toda sorte de prazeres efêmeros que o desvia da felicidade como bem: a busca da felicidade acaba virando um mal para um bem inatingível.

A razão, portanto, seria o que no homem teria condições de estabelecer um princípio norteador para sua Vontade de modo a reger suas ações na busca de um bem não só atingível como também duradouro. No entanto, somente sendo estabelecida a partir da razão, essa Boa Vontade valeria por si mesma, assentando-se na sua própria necessidade de existir e não em sua utilidade. Uma razão empírica que se coloca no gozo da vida e da felicidade como fim, isto é, uma razão que se coloca como instrumento e não como forma de estabelecer o bem em si de uma Boa Vontade, causa afastamento da verdadeira satisfação.

É a razão pura prática que desloca a motivação humana de uma razão instrumental empírica para o exercício autônomo da liberdade, construindo uma Vontade Boa em si mesma como norteadora das ações através do dever; não se prendendo ao fruto dessas ações, mas nas ações em si e em seus fundamentos apriorísticos.

Kant exemplifica essa questão caracterizando o que seria um ato moral. O homem que conserva sua vida conforme o dever, não pratica um ato moral, mas o homem que conserva sua vida por dever, pratica um ato moral. Teria um conteúdo moral, por exemplo, os atos que levariam um homem insistir em viver mesmo que, afetado por todo desgosto e desesperança na vida, não tivesse medo de morrer e ainda desejasse a morte, mas, contudo, permanecesse vivo por dever.

Praticar algo por inclinação, mesmo que esteja conforme o dever, não faz do ato um ato moral. Uma ação de autêntico valor moral só pode ser considerada assim ao ser praticada sem qualquer inclinação que traga satisfação instintiva, portanto, praticada apenas pelo dever que se impõe a ela; por ela própria.

Aquele que tem seus atos regidos por suas inclinações (que impulsionam o ser humano a fazer o que lhe causa felicidade imediata e prazer), mesmo estando conforme seu dever, não pratica atos morais.

Se o ato moral se configura nesses termos, não é possível exercê-lo dando voz às nossas inclinações, e somente a partir de uma firme Boa Vontade estabelecida por princípios racionais de universalidade e necessidade é que nos tornaríamos homens éticos.

Kant cumpre o que se propôs fundamentando a transição do conhecimento moral da razão comum para o conhecimento filosófico através de quatro proposições:

Somente as ações que possuem seu valor incondicionado é que podem ser consideradas como atos morais. Propósitos que motivam ações, alimentados pelo que elas proporcionam, não geram ações consideradas atos morais, portanto é somente através de uma Vontade que se deve agir;Por sua vez, a vontade humana é determinante de atos considerados morais somente quando essa vontade tiver o seu valor fora do propósito que se queira alcançar por ela, isto é, que o valor dessa vontade se circunscreva em um princípio incondicionado a priori. A vontade se situa entre um princípio formal e um princípio material. O ato moral só pode ser considerado como tal se circunscrito numa vontade cujo valor esteja no princípio formal que a norteia: o direcionamento dessa vontade através da razão pura assume o cumprimento do dever e o dever é “a necessidade de uma ação por respeito à lei”(13).


A lei máxima a que toda vontade humana deve obedecer e que se constitui na Boa Vontade, é a lei segundo a qual nossas ações, em conformidade com ela, tenham caráter universal. Isso significa que minha vontade deve engendrar somente atos que podem ser assumidos por todos em relação a mim.

Segundo Kant a razão cobra-nos, naturalmente, um respeito para com uma Lei Universal. Uma Lei Universal é aquela que queremos que todos cumpram, pois o cumprimento dela por todos nos beneficia. Se quisermos que todos a cumpram, surge um dever para que nós também a cumpramos. Lei Universal > Dever > Vontade > Ato Moral.

Percebemos naturalmente que o valor de uma Lei Universal excede em muito o valor de qualquer inclinação. O respeito à Lei faz com que haja uma ação necessária que se constitui no dever. E é esse dever que constitui a condição de nossa vontade, cujo valor supera a tudo, já que ela é incondicionada valendo por si mesma pelo apriorismo de sua gênese.

É destino da razão, segundo Kant, direcionar a vontade para um dever que valha por si mesmo e independa totalmente das inclinações humanas: a razão deve prevalecer sobre os instintos. Por isso, para o homem, a vontade deve ser o bem supremo; só assim a razão poderá ser exclusiva em sua determinação, mesmo que essa determinação vá contra nossos instintos e inclinações. A razão deve, portanto, “encarar” o dever e assumi-lo para si como princípio a priori em seu direcionamento da vontade humana. O dever precisa ser encarado como uma Lei, que resulta da máxima que regula nossas ações de forma que elas se tornem Lei Universal.

Dessa forma Kant faz a transição entre o conhecimento moral da razão comum para o conhecimento filosófico dessa moralidade praticada pela razão pura prática do homem vulgar. Ao promover uma análise da moral vulgar, que já julga a Boa Vontade como um bem em si mesmo, Kant demonstra que, por traz da prática corrente comum, a Boa Vontade age por um dever imposto por uma máxima (princípio subjetivo do querer) que pode se tornar uma Lei Universal. No entanto alega que a razão comum precisa sair de sua prática inconsciente, embora correta, e buscar fundamento na Filosofia Prática a qual determinaria seus princípios de atuação.




Segunda Seção


Transição da filosofia moral popular para a metafísica dos costumes

Kant inicia a Segunda Seção argumentando que a razão prática comum dificilmente consegue distinguir uma ação que foi praticada por dever e uma ação praticada motivada pelos seus efeitos, por isso ficaria duvidoso o julgamento da mesma no que concerne se ela se constitui um ato moral ou não. Ele argumenta ainda que, por esse motivo, os filósofos em geral sempre atribuíram o agir humano a atos utilitários e egoístas, embora admitissem que a razão fosse autônoma para identificar a necessidade conceitual da moralidade.

O advento de uma Metafísica dos Costumes como transição da Filosofia Moral Popular, se baseia substancialmente da necessidade da lei valer para todo ser racional em geral e não somente para os homens; homens que, à época de Kant, vivam num tempo de ceticismo e rejeição à metafísica.


Segundo Kant, é impossível determinar por experiência (empiricamente) um caso sequer em que a máxima de uma ação, mesmo conformada com um dever, tenha como fundamento exclusivo uma moralidade com base no dever em si. Sua intenção nesta Seção, portanto, é demonstrar a existência de uma lei objetiva que garanta o cumprimento do dever sem que a vontade se guie pelos efeitos da ação.

Dessa forma a razão pode e deve determinar a vontade humana a partir de motivos a priori, mesmo que as ações efetivas sejam feitas por inclinações empíricas que contradizem essa vontade determinada pela razão. A razão pura e ao mesmo tempo prática concebe a priori a lei máxima do dever e universaliza uma necessidade a todo ser racional, mesmo que os atos em si não sejam feitos por dever e sim pelos próprios frutos das ações.

A razão é pura e ao mesmo tempo prática porque, além dela conseguir determinar a priori a universalidade e a necessidade das ações, determina a vontade de forma a torná-la executável por meio de ações que tragam conformidade como a máxima contingente e particular, que busca empiricamente motivos para sua execução. Portanto a ação, se não for feita por dever é de forma prática conforme o dever, pois seu fundamento está assentado num princípio apriorístico.

A razão pura nos mostra com clareza que, para ser universal e necessária a todo ser racional, uma ação não pode ter base no que é contingente e particular. Logo, mesmo atos justificados pela experiência têm sua origem em um sentimento de dever anterior que não se baseia no fruto da ação, e se estabelece em si mesmo de forma apriorística através de uma vontade determinada pela razão pura prática.

É de todo preceito filosófico extraído da razão prática em conformidade com os princípios identificados a priori, que se torna possível estabelecer uma Metafísica dos Costumes que coloque esses preceitos de forma a serem seguidos. Essa Metafísica dos Costumes está acima de toda antropologia, teologia e física e se assenta no conhecimento filosófico abstraído e fundamentado a partir da razão prática que age de acordo com princípios puros e anteriores a qualquer experiência.

No entanto, o homem, por viver dentro da contingência e de sua subjetividade (particularidade), tem sua vontade também influenciada pelas inclinações instintivas contingentes e singulares. Dessa forma, segundo Kant, a razão não determina suficientemente a vontade, esta que se coloca numa encruzilhada entre o que é necessário e universal e o que é contingente e particular, isto é, entre o formal e o material. O conceito de obrigação coloca em conformidade a Vontade, mesmo contingente e particular (portanto subjetiva), com a Lei Suprema da Moralidade, que é objetiva (portanto universal e necessária).

Sendo cada coisa da natureza regida por certas leis, somente um ser racional como o homem é capaz de agir por princípios, isto é, conseguir direcionar sua vontade de forma que ela se guie pela necessidade e universalidade de suas ações e não pela contingência e particularidade. Só pela razão é possível se tirar das leis ações efetivas, logo, é de se esperar que somente a razão pura prática determine a vontade humana, mesmo sob a influência da subjetividade.

Em suma, a obrigação coloca um princípio objetivo em conformidade com a subjetividade humana, e a representação desse princípio objetivo dentro da subjetividade constituindo a Vontade, chama-se mandamento. Por sua vez a fórmula do mandamento é designada por Kant de Imperativo.

Os Imperativos, expressos pelo verbo dever, mostram a relação de uma lei objetiva da razão com a subjetividade que constitui uma vontade. O ordenamento dos Imperativos pode ser hipotético ou categórico. Os Imperativos Hipotéticos expressam a necessidade de prática de uma ação como meio de atingir o resultado da mesma. E os Imperativos Categóricosexpressam a necessidade prática de uma ação por ela mesma, sem relação com seu fim, determinada por uma vontade a priori. O imperativo que determina uma ação como meio para atingir alguma coisa é hipotético. O imperativo que determina uma ação com fim nela mesma é categórico.

O imperativo hipotético nos diz sobre se uma ação é boa ou não relativa a um propósito. Kant designa de princípio problemático-prático o imperativo hipotético que diz se uma ação é boa em relação a um propósito possível, e designa de princípio assertórico-prático o imperativo hipotético que diz se uma ação é boa em relação a um propósito real e efetivo.

Por sua vez, sem se referir a qualquer propósito a posteriori, o Imperativo Categórico se vale como princípio apodíctico-prático, pois declara a ação boa em si; objetivamente necessária por seu caráter universal.

Quando um imperativo categórico determina o bom da ação pela disposição que se nutre da própria ação independente do que se atinja com ela, ele pode ser chamado de Imperativo da Moralidade.

Kant diferencia assim, dentre os imperativos, princípios que norteiam nossa vontade. Os Imperativos de Habilidade são imperativos hipotéticos problemático-práticos que servem como meios para atingir um fim, e são considerados bons por sua eficácia e não em si mesmos. Por outro lado, os Imperativos de Sagacidade são os imperativos hipotéticos assertórico-práticos preocupados com a melhor maneira de se atingir um fim, pois se relaciona com a melhor escolha dos meios para um fim específico e são considerados bons por sua eficiência. E por fim os Imperativos da Moralidade são imperativos categóricos que são considerados bons em si mesmos e independem dos resultados obtidos, pois seu valor está colocado pela razão pura prática de forma a priori, em conformidade com a Lei Máxima Moral que determina nossa vontade para agir a partir de sua necessidade e universalidade.

Os imperativos hipotéticos são analíticos, pois se preocupam com os meios para se atingir um fim específico, no entanto esse fim é contingente e particular e não é possível estabelecer uma regra única e absoluta (portanto universal e necessária) para atingi-los.

Kant, então indaga sobre como conceber um imperativo categórico de moralidade que independa totalmente daquilo que advir dele, ou que a vontade de cumpri-lo não se circunscreva em nada externo a ele? Como seria possível um imperativo da moralidade cuja vontade de cumpri-lo não se relacione de forma alguma com os frutos de seu cumprimento?

Kant argumenta que os outros imperativos, por serem hipotéticos e dependerem de seus resultados (sejam eles possíveis ou reais), influenciam a vontade, mas deixam a ela o arbítrio de renunciar seus propósitos. Portanto eles não se impõem de forma absoluta e não podem ser considerados Leis Supremas da Moral.

A possibilidade da existência efetiva do Imperativo da Moralidade se coloca em dificuldade por se tratar de uma proposição sintético-prática a priori. Esse imperativo deve ser único e Kant o descreve através da frase: “age só segundo a máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne universal”(14).

Kant, nesse ponto, passa a enumerar alguns deveres a partir de imperativo único que ele descreve. Ele dá exemplos para elucidar o dever que quer definir e antes também define natureza como: “a realidade das coisas enquanto determinada por leis universais”(15). Os deveres abstraídos dos exemplos dados por Kant podem ser resumidos nesses quatro:

 Preservar a Vida acima do amor próprio Comprometer-se somente com aquilo que intenciona cumprir Desenvolver o máximo de suas potencialidades e talentos Promover o bem estar a todos

Kant argumenta a favor desses exemplos como deveres extraídos do Imperativo da Moralidade através de situações hipotéticas em que se pergunta sobre a melhor atitude a ser assumida com base em sua universalidade e necessidade. Toda ação que não seja desejável torná-la uma lei válida para todos os seres humanos, não é uma ação moral, logo teríamos o dever de não praticá-la. Ao contrário, toda ação que seja desejável que se torne uma lei válida para todos os seres humanos é uma ação moral.


Kant conclui então que:“se o dever é um conceito que deve ter um significado e conter uma legislação real para as nossas ações, essa legislação não se pode exprimir senão em imperativos categóricos, e de forma alguma por imperativos hipotéticos.” (KANT, Fundamentação da Metafísica dos Costumes e Outros Escritos 2005, p. 55)

No entanto ainda não se tem provado, para Kant, a existência do Imperativo Categórico. Os exemplos dados e os deveres extraídos deles ainda podem estar contaminados por interesses a posteriori ditados por inclinações. Para garantir a demonstrabilidade da existência do Imperativo Categórico, Kant lança a seguinte questão:


“será ou não uma lei necessária para todos os seres racionais a de julgar sempre as suas ações por máximas tais que eles possam querer que devam servir de leis universais?” (ibidem, p. 57)

Kant ainda argumenta que, se essa lei existe, ela tem de estar atrelada de forma totalmente apriorística ao conceito de vontade para um ser racional. É nesse ponto que Kant se foca no título da Seção e faz a transição da Filosofia Moral para a Metafísica dos Costumes, pois, segundo ele, só adentrando à Metafísica (que tem o campo distinto da Filosofia especulativa) é que seria possível responder essa questão.

A Metafísica dos Costumes trata da Lei Objetiva-Prática; “da relação de uma vontade consigo mesma enquanto essa vontade se determina tão-somente pela razão”(16) e, portanto, destituída de toda relação com o empírico para determinar o procedimento por si, necessariamente a priori.


Sendo “princípios” representações das leis que são subjetivamente necessárias, a vontade é a capacidade humana de escolher, pois só o homem age por princípios. Por isso Kant diz que a vontade é concebida como a faculdade de se determinar a si mesma, agindo de acordo com as representações de certas leis.

Se, para Kant, a vontade sempre age por princípios, quais seriam, então, os princípios determinados pela razão e que seriam válidos a todos os seres racionais de modo a se configurar como Imperativos de Moralidade a determinar nosso modo de agir, e assim garantir a Boa Vontade?Kant, para responder essa pergunta, discorre sobre como os princípios agem:


- Os princípios objetivos que servem à vontade como sua própria autodeterminação, são chamados FIM (nesse caso se é posto somente pela razão, significa que vale para todos os seres racionais);- Os princípios subjetivos que servem à vontade apenas como possibilidade de ação cujo efeito é um fim, são chamados MEIOS;


Decorre disso que:

- Os princípios subjetivos do desejar são chamados IMPULSO;- Os princípios objetivos do querer são chamados MOTIVO.


Com isso Kant explicita a distinção entre Fins Subjetivos (assentados em impulsos) e Fins Objetivos (assentados em motivos e válidos a todo ser racional). Os Fins Subjetivos são bases apenas para Imperativos Hipotéticos, ao passo que os Fins Objetivos são as bases dos Imperativos Categóricos, ou seja, da tão procurada Lei Prática que Kant deseja.

Postas essas considerações, Kant investiga então qual seria o valor em si mesmo absoluto que fundamentaria o Fim Objetivo e referenciaria o Imperativo Categórico, chegando àNatureza Racional. A Natureza Racional seria, portanto, o que fundamenta o princípio supremo prático e o imperativo categórico determinante da vontade humana, já que representa na subjetividade de cada ser racional um fim em si mesmo; princípio, portanto, objetivo da vontade e servindo de lei prática universal.

Dessa forma Kant determina qual será o Imperativo Prático: “age de tal maneira que passas a usar a humanidade, tanto em tua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre e simultaneamente como fim e nunca simplesmente como meio”(17).

Retomando os exemplos dados anteriormente e desenvolvendo-os sob a perspectiva do imperativo que acaba de definir, Kant reforça seu argumento que sustenta o princípio da humanidade e de toda natureza racional como fim em si mesma. Dessa forma o estabelece como condição suprema restritiva da liberdade das ações de cada homem(18), já que se constitui tanto universal (válido para qualquer ser racional), quanto necessário (já que tem respaldo na máxima de cada ser humano).

Diante de toda essa exposição fica demonstrado, segundo Kant, que a vontade se constitui uma legisladora universal, pois cada homem se vê obrigado a agir segundo sua vontade submetida a uma Lei que a obriga direcionar-se a ela, visto que essa Lei une os interesses subjetivos a uma prática objetiva em um princípio com um fim nele mesmo. Portanto o homem é autônomo e pode agir segundo sua vontade, já que ela está submetida, quando regida pela razão, à Lei Suprema da Moralidade.

O princípio formal supremo do dever determinado pela razão que direciona a Vontade para cumprir a lei, segundo Kant, é o Princípio da Autonomia da Vontade. Esse princípio é vivido no que Kant denomina Reino dos Fins, isto é, um reino regido pela lei que estabelece a relação entre seus membros através de uma recíproca visão mútua como fim em si mesmos, constituindo uma ligação sistemática de seres racionais por meio de leis objetivas comuns. Esse princípio se opõe a uma Vontade Heterônoma e justifica e fundamenta uma Vontade Autônoma.

A Vontade Autônoma confere dignidade ao ser racional, permitindo que o princípio da moralidade tenha forma, matéria e uma determinação em si mesmo, através de sua universalidade, do seu fim em si mesmo (o ser racional) e as máximas em conformidade com o ideal do Reino dos Fins.

Portanto a natureza racional colocando a si mesma como fim constitui a matéria da Boa Vontade, que por sua vez é a vontade cumprindo as máximas que estão em conformidade com a Lei Universal. A Vontade Autônoma é, portanto, o princípio supremo da moralidade e o próprio Imperativo Categórico por excelência.

Kant termina a seção perguntando como é possível tal proposição prática sintética a priori e por que ela seria necessária? Mas não responde essa questão, pois para os limites impostos para sua fundamentação da metafísica dos costumes, basta que tenha sido desenvolvido o conceito de moralidade atrelado em sua base a uma vontade autônoma e a deixa em aberto para ser desenvolvida em sua Crítica da Razão Prática. No entanto, na Terceira Seção, promete que apresentará os traços principais da possibilidade sintética a priori do Imperativo Categórico.



Terceira Seção


Transição da metafísica dos costumes para a crítica da razão prática pura

Conforme enunciado na Segunda Seção, Kant procurará apresentar os traços principais da possibilidade sintética a priori do seu princípio da moralidade, isto é, do Imperativo Categórico. A validade objetiva de um juízo sintético a priori, como ele próprio enuncia em sua Crítica da Razão Pura(19), necessita de uma Dedução Transcendental, onde deverá ser apresentado um terceiro elemento que una de forma necessária outros dois que não estejam em relação de conectividade. Esse terceiro elemento não pode ser derivado da experiência, mas sim constituir a condição de possibilidade da experiência para que o juízo seja válido.

Na Segunda Seção Kant faz essa Dedução Transcendental com o Imperativo Categórico, que une a vontade à ação humana. Porém ele desenvolve analiticamente essa conexão, promovendo a transição da Filosofia Moral Comum para a Metafísica dos Costumes. Na Terceira Seção, pretendendo fazer a transição da Metafísica dos Costumes para uma Crítica da Razão Prática Pura, Kant realiza a Dedução Transcendental estabelecendo a Liberdade como condição de possibilidade que daria objetividade a uma ligação necessária entre a Lei Moral (o Imperativo Categórico) e a Autonomia da Vontade. Estabelecer a Liberdade como condição de possibilidade de uma Vontade Autônoma, que cumpre uma Lei Universal, possibilita o juízo sintético a priori que Kant estaria fundamentando nessa Terceira Seção.

Kant começa conceituando a liberdade como conceito-chave para a explicação da autonomia da vontade. Define vontade como uma espécie de causalidade dos seres vivos enquanto racionais(20) e liberdade como a propriedade dessa causalidade na medida em que ela é eficiente. A liberdade seria, então, a propriedade que caracteriza a vontade humana em sua eficiência. Quanto mais eficiente é a vontade humana, isto é, quanto mais a vontade humana pode determinar-se a si própria, mais contém em si como propriedade o exercício da liberdade. Quanto mais a vontade é autônoma, mais liberdade a caracteriza.

Kant lembra que nem sempre a vontade é eficiente, isto é, pode ser satisfeita em toda sua determinação, e se isso ocorre é porque não há liberdade participando de sua propriedade. Só é eficiente a Vontade que tem em suas propriedades a liberdade. A vontade eficiente é a vontade que goza de autonomia para se estabelecer e está em conformidade com o Imperativo Categórico cuja base tem o princípio supremo da moralidade vivido no Reino dos Fins.

Kant teme estar diante de um círculo vicioso em seu raciocínio, pois o terceiro termo o qual pretende fazer a síntese de seu juízo, a saber, a Liberdade como síntese entre a Vontade Autônoma e o Imperativo Categórico, está contida em um dos termos (Autonomia), logo tornando-o analítico e não sintético.

Kant enfrenta essa circularidade estabelecendo que ela seja resolvida se nós, ao nos pensarmos como causa eficiente(21) a priori através da liberdade, pudermos adotar um ponto de vista diverso de quando nos representamos através de nossas ações, isto é, enquanto efeito; fenômeno. Isso significa que para resolver o círculo vicioso é necessário nos vermos de duas formas diferentes: uma enquanto noumenon e outra enquanto fenômeno; uma como causa e outra como efeito. Nós, enquanto causa eficiente, determinaríamos nossa essência, nossa natureza em si, e, enquanto fenômeno, determinaríamos a expressão sensível dessa essência através de nossos atos.

Kant, porém, alerta que a “coisa em si” é impossível ser conhecida (inclusive quando tentamos nos representar jamais conseguimos saber o que somos em nós mesmos(22)), e para resolver esse espinhoso dilema (o qual abordaremos em nossa análise crítica), estabelece que a razão humana é superior ao entendimento possível que possamos ter por serInteligência, e mesmo sem poder conhecer-se a si mesma, intui que haja um mundo inteligível que autoriza que ela conceba-se com o poder de ser causa eficiente de si. Kant, dessa feita, retorna a Platão e fundamenta a existência do Mundo Sensível e do Mundo Inteligível, preconizando que o ser racional deva considerar-se a si mesmo como inteligência, “não como pertencendo ao mundo sensível, mas ao inteligível” e, com isso, “ter dois pontos de vista dos quais pode considerar-se a si próprio”(23): um ponto de vista em que se percebe apenas enquanto fenômeno, de forma sensível, e um ponto de vista em que se percebe enquanto noumenon, de forma inteligível; portanto causa eficiente de si mesmo no exercício de sua liberdade.

Kant, dessa forma, estabelece um terceiro termo sintético que torna possível, objetivamente, o juízo a priori da Liberdade fundamentando a Vontade Autônoma em direção a Lei Moral (Imperativo Categórico). No entanto, para ser possível ainda sim um Imperativo Categórico, Kant lança mão de um juízo que ele não justifica: o fundamento do chamado Mundo Sensível dado pelo Mundo Inteligível.

Somente através da superioridade do Mundo Inteligível, e, portanto, sendo ele fundamento do Mundo Sensível é que, nos entendendo como inteligência é que entenderemos e consideraremos as leis do Mundo Inteligível como imperativos para nossas ações. Segundo Kant, somente assim é possível o Imperativo Categórico; já que a idéia de liberdade faz de nós membros do Mundo Inteligível na medida em que somos capazes de nos auto-determinarmos ao nos vermos como causa eficiente de nós mesmos.

Assim, Kant representa esse dever categórico como um juízo sintético a priori, pois:


“(...) sobre minha vontade afetada por apetites sensíveis sobrevém (...) a idéia dessa mesma vontade, mas como pertencente ao mundo inteligível, pura, prática por si mesma.” (KANT, Fundamentação da Metafísica dos Costumes e Outros Escritos, p. 87)


E acrescenta:

“O dever moral é, pois, um querer próprio necessário seu como membro de um mundo inteligível, só sendo pensado por ele como dever à medida que ele se considera, simultaneamente, membro do mundo sensível.” (Ibidem)
Kant, antes de suas considerações finais, discorre sobre o limite extremo de toda filosofia prática, recorrendo à aparente contradição entre a liberdade com sua determinação da vontade enquanto causa eficiente no mundo inteligível e enquanto fenômeno regido por leis naturais no mundo sensível. Resolve, pois, essa contradição através de uma petição de princípio que estabelece uma dialética da razão em relação à vontade, a qual, ao invés de colocar a liberdade como condição racional em oposição à necessidade natural, estabelece a convivência pacífica entre os dois pontos de vistas; julgando naturalmente a natureza racional humana consciente de sua inteligência e, portanto participando do mundo inteligível.

No entanto, Kant explica, justamente por pensar ter resolvido a contradição, que não seria esse o limite extremo da filosofia prática. Sua petição de princípio que estabelece o mundo inteligível superior ao sensível e todas as coisas em si pertencentes ao mundo inteligível, e, portanto, o verdadeiro eu do homem pertencente a esse mundo, faria com que, automaticamente, a vontade humana se voltasse para superar suas inclinações sensíveis em direção às leis que regem o mundo que fundamenta a realidade: o inteligível.

O limite, então, da razão prática estaria em sua pretensão de, ao invés de apenas submeter-se à lei moral através do exercício de sua liberdade percebendo-se como inteligência no mundo inteligível, quisesse adentrar esse mundo por intuição, coisa que ultrapassaria seu limite. Para Kant, o conceito de um mundo inteligível é apenas um ponto de vista em que a razão se vê forçada a tomar além dos fenômenos para julgar-se a si mesma como prática, a fim de afirmar a consciência de si mesma enquanto inteligência e livremente constituída como causa eficiente de sua vontade(24).

Ainda antes de sua conclusão final, Kant parece render-se à impossibilidade de explicar a liberdade da vontade assim como à impossibilidade de descobrir como se dá o interesse humano pelas leis morais, e aceita o suposto fato de que seja uma tendência natural nossa denominada de sentimento moral. Para Kant, esse sentimento moral é um efeito subjetivo que a lei exerceria sobre a vontade, cujos fundamentos objetivos somente a razão poderia fornecer(25).

Mas caberia aqui um questionamento que solicitaria de Kant um juízo sintético a priori para fazer a conexão entre esse sentimento moral e a lei, isto é, como que, objetivamente se dá as condições de possibilidade da lei suscitar esse sentimento moral? Kant responde que somente uma faculdade da razão que inspire um sentimento de prazer poderia fazer um ser ao mesmo tempo racional e afetado pelos sentidos desejar aquilo que só a razão pura inspiraria. E assim abre mão do juízo sintético a priori que explicaria e nos daria conhecimento dessa causa. Ele justifica dizendo que seria impossível compreender a priori uma espécie tão especial de causalidade que faça com que um pensamento engendre uma sensação de prazer que direcione a vontade humana para o dever.

Para salvar-se dessa possível lacuna, Kant recorre mais uma vez na fundamentação da possibilidade de um imperativo categórico, indicando mais uma vez o pressuposto que deve ser assumido: a liberdade. Esse pressuposto seria suficiente para a razão prática se direcionar para o cumprimento da lei, mas admite que a própria liberdade enquanto pressuposto jamais deixará se aperceber por nenhuma razão humana(26).

Nas considerações finais, Kant justifica o impasse a que chegou, dizendo que não se trata de uma falha na tentativa de dedução do princípio supremo da moralidade, mas de uma constatação da limitação natural da razão em não conseguir tornar concebível de forma pura uma lei prática incondicionada. No entanto, e esse fato salvaria sua tese, para a razão prática a necessidade absoluta da causa suprema vai até seu limite, que é das leis das ações de um ser racional como tal(27). A razão pura só conseguiria chegar à necessidade absoluta da causa se recorresse a uma condição, e com condição ficaria comprometido o pressuposto necessário da liberdade.

Por fim, Kant admite que não seja possível conceber a necessidade prática incondicionada do imperativo moral, porém concebe-se seu caráter inconcebível. Termina a seção dizendo que “é tudo que, à luz da justiça, se pode exigir de uma filosofia que aspira atingir, nos princípios, os limites da razão humana.”(28)



Disponível em:

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04/03/2018

A Concepção de Santo Agostinho e Henri Bergson acerca do tempo



por Gisela Durval (2009)


O tempo possui diversos aspectos. No tempo físico temos o movimento exterior das coisas e no tempo psicológico, a sucessão dos nossos estados internos. O tempo físico e psicológico não “acontece” em permanente coincidência. O tempo que firma o calendário é o cronológico, o qual está intimamente relacionado ao físico e pode ser considerado o tempo dos acontecimentos. Já o tempo histórico representa a duração das formas históricas da vida.


Embora se trate de um artifício, a decomposição do tempo é muito útil na organização das nossas ações inteligentes e, se não atribui ao tempo um significado filosófico, permite à ciência trabalhar com essa grandeza fundamental no estudo dos fenômenos.


Para Santo Agostinho (354 – 430), a sede do tempo está na alma e para entender isso é necessário ter em mente a ideia de que o tempo faz parte da criação: o tempo é criatura.


Para o filósofo francês Henri Bergson (1859 -1941), há um só tempo real e os outros são fictícios. Sua filosofia é uma filosofia do tempo; um tempo esquemático e espacial, incompatível com o tempo contínuo, que muda, é memória e criação.


O tempo da história, que denominamos “imaginário” (psicológico), depende do tempo real (cronológico) - que não é outro senão o tempo que o relógio assinala - é a maneira pela qual o tempo é subjetivamente vivenciado pelos indivíduos.


O tempo é, e sempre tem sido um problema filosófico de grande interesse, não só para filósofos e cientistas, mas também para o indivíduo comum, que está acostumado a organizar e realizar suas tarefas e experiências de acordo com a idéia de tempo concebida como sucessão de instantes traduzida em presente, passado e futuro.


Santo Agostinho (354-430) foi um dos grandes pensadores a se preocupar com esta problemática. A reflexão filosófica agostiniana sobre o tempo encontrada no Livro XI da obra Confissões defronta-se com algumas dificuldades principais ao falar sobre o tempo pois não podemos apreendê-lo - ele nos escapa – assim como não conseguimos medi-lo. E também não podemos percebê-lo; diz-nos Agostinho em Confissões:


Que é, pois, o tempo? Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quem o poderá apreender, mesmo só com o pensamento, para depois nos traduzir por palavras o seu conceito? E que assunto mais familiar e mais batido nas nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos, compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam. O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém me perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei. (CONFISSÕES, livro XI, cap.14, p. 322)


Nossa percepção do tempo permite dividi-lo em três partes: passado, presente e futuro. E, a partir de nossa experiência, sabemos que esses três tempos são bastante distintos entre si.


Santo Agostinho entende que existe outra maneira de pensar o tempo sem ser em termos espaciais, mas a partir de outro elemento que é a linguagem, a fala; continuamos pensando o tempo, mas sem a tentativa de explicar a sua essência. Podemos tentar apreendê-lo a partir de nossas práticas linguísticas, porque a linguagem adquire sentido a partir do tempo. Em outras palavras, a linguagem articula o tempo e o tempo articula a própria linguagem; conclui o bispo: Pensar o tempo significa, portanto, a obrigação de pensar na linguagem que o diz e que nele se diz.


Para o bispo de Hipona, os tempos são três: presente das coisas passadas, presente das coisas presentes, presente das coisas futuras. O passado é o tempo que se afasta de nós, de nossa consciência, de nossa percepção; é tudo que já não é mais palpável, simplesmente porque já se foi. O presente é o “agora”, o tempo em que nossas experiências acontecem, no momento em que ocorrem. E o futuro, por sua vez, corresponde ao conjunto de todos os eventos que se concretizam na medida em que o tempo passa.


Os termos lembrança, recordação, percepção, atenção e espera - considerando a memória e sua teoria temporal, ligando o passado ao futuro - são encontrados na seguinte fala de Agostinho:


Vou recitar um hino que aprendi de cor. Antes de principiar, a minha expectação estende-se a todo ele. Porém, logo que começar a minha memória dilata-se, colhendo tudo que passa de expectação para o pretérito. A vida deste meu ato divide-se em memória, por causa do que já recitei, e em expectação, por causa do que hei de recitar. A minha atenção está presente e por ela passa o que era futuro para se tornar pretérito. Quanto mais o hino se aproxima do fim tanto mais a memória se alonga e a expectação se abrevia, esta que fica totalmente consumida, quando a ação, já toda acabada, passa inteiramente para o domínio da memória. (CONFISSÕES, livro XI, cap.28, p. 337)


Agostinho na sua “maneira” de fazer Filosofia, de discutir questões, como o tempo - tão importante para a cultura ocidental - tornou-se um pensador de notória referência para ser lido e pesquisado em várias esferas do conhecimento e a análise agostiniana sobre o tempo, que não é realizada apenas em termos cosmológicos, como medida de movimento, mas também como inseparável da interioridade psíquica, torna-se um elemento importante para a constituição “do eu”, até mesmo porque o eu agostiniano que começa a narrativa das confissões não é o mesmo que a conclui. O tempo é a produção da identidade e da diferença consigo mesmo, pode ser ainda a dimensão de um sujeito que está se constituindo, pois exerce um papel fundamental na consciência humana (uma vez que tempo e consciência são indissociáveis).

Para Agostinho, fora da criação existe somente a eternidade de Deus, que consiste na imutabilidade, na ausência de tempo.

A questão do tempo ainda permanece obscura e controversa. Muitos autores que pensam sobre o tempo, pensam a partir de Santo Agostinho.

O período que compreende o final do século XIX e o começo do século XX é marcado pelo positivismo e pelo cientificismo; as ciências particulares deveriam seguir o paradigma das ciências positivas, cujo modelo era a física e assim trabalhar com dados empíricos e mensuráveis submetidos à lei de causalidade.


O filósofo Henri Bergson (1859 – 1941) é um crítico dos pressupostos filosóficos da ciência de sua época, particularmente, da psicologia e da biologia.


Bergson busca construir uma metafísica que não ignora a realidade de fato. Compreende que o primeiro acesso a essa realidade é a vida interior, constituída por nossa psique; assim, volta seu olhar a esse acesso privilegiado, buscando compreender sua natureza, antes de buscar investigar a realidade tida como exterior. Descobre que essa vida interior é de natureza temporal: o tempo, enquanto duração é a essência da vida psíquica. Todavia, não é assim que, no geral, a psicologia de seu tempo a entendeu; marcada pelo determinismo psicofísico, acabou por não reconhecer a verdadeira natureza psíquica, entendendo-a como sendo de natureza espacial.


No início do século XX, quanto mais complexa tornava-se a organização da vida sobre o planeta, maior era a necessidade de que esse tempo fosse único e sincronizado.

Num passo adiante das necessidades cotidianas, A. Einstein (1879 - 1955) percebeu que esse tempo único era múltiplo, que sua medida dependia do observador. Bergson não rejeitou a relatividade. Ao contrário, percebeu na linguagem simbólica da teoria algo ressonante com sua própria filosofia e reconheceu o valor científico desta criação da inteligência humana, mas uma observação feita pelo filósofo francês em 1922 procurou mostrar o que há de intuição na inteligência e o que há de duração no tempo da relatividade. Infelizmente, a questão bergsoniana foi ofuscada pelo mito de Einstein.

Desde o começo de suas investigações, Bergson procurou o que está ausente na filosofia: a precisão. Surpreendeu-se ao constatar que tanto a física quanto a matemática não se ocupavam do “tempo real”; o tempo que elas tratavam era um tempo que não servia para nada (...), não fazia nada. (Ensaio de 1930, ”Le possible et le réel”); mas se a física e a matemática não se ocupavam do tempo real, de que tempo se ocupavam? Numa concepção abstrata do tempo, os fenômenos que se sucedem no mundo físico seguem uma ordem constante e intemporal, em que a distinção do passado, presente e futuro parece ilusória. Trata-se de um tempo no qual a mesma causa sempre produz o mesmo efeito e é isso que torna possível o estabelecimento de leis que permitem a previsão, ao cálculo antecipado dos fenômenos futuros que preexistem de certa forma à sua realização.


Bergson explica como se processa a “confusão entre tempo e espaço”, quando exprimimos a duração pela extensão, e a sucessão toma para nós a forma de uma linha contínua, ou de uma cadeia, cujas partes se tocam sem se penetrar.
Assim, quando definimos o tempo desta forma estamos definindo na realidade, o espaço e a verdadeira duração..
Bergson vê o tempo real como heterogêneo e qualitativo.


Tempo é mudança essencial e contínua, passa incessantemente modificando tudo e constitui a própria essência da realidade psíquica.


CONCLUSÃO


O tempo psicológico e físico de uma pessoa, de um grupo social, dos seres vivos e do próprio universo traz a marca dos acontecimentos que lhes precederam. A irreversibilidade do tempo, dos acontecimentos, sua riqueza e maior complexidade relacionam-se à memória e sua imprevisibilidade deve-se tanto a memória quanto a um dinamismo interno e criador.

A reflexão filosófica de Santo Agostinho sobre o tempo é considerada uma de suas mais brilhantes análises filosóficas, a qual o torna, embora sendo um pensador medieval, muito mais contemporâneo do que outros pensadores da atualidade. O modo como Agostinho expõe suas interrogações com relação ao tempo marca a reflexão ocidental que até hoje determina que “não conseguiremos medir o tempo”. O presente porque não tem nenhum espaço; o futuro porque ainda não veio e o passado porque já não existe mais. Podemos perceber e medi-lo apenas no momento em que está decorrendo. Os tempos, como afirma, existem na mente – o que em sua reflexão equivale a dizer na alma.


Já o filósofo francês Henri Bergson critica o pensamento filosófico e científico, deixando como contribuição que é necessário pensar nos pressupostos filosóficos da psicologia defendendo que o tempo dos físicos e matemáticos é reversível e que pode ser compreendido como uma linha móvel, com o qual se pretende medir a duração das coisas, uma multiplicidade numérica. Bergson admite que pode,por meio de algarismos e palavras imaginar ou pensar o número sem remeter à extensão, o que não é possível em uma representação intelectual.

Para evitar equívocos, é necessário distinguir o tempo do espaço e pensar a vida psíquica como essencialmente temporal.


BIBLIOGRAFIA

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia.5.ed.São Paulo,Martins Fontes 2007.

AGOSTINHO,Santo.Confissões Tradução de J.Oliveira Santos, e A. Ambrósio de Pina.São Paulo:Nova Cultural,1999 (Coleção Os Pensadores)

E REFERÊNCIAS

Reflexões de Santo Agostinho:

Disponível em < http://blog.controversia.com.br/2009/05/11/santo-agostinho-e-sua-reflexo-sobre-o-tempo/> acesso em 09.setembro.2009


A. Einstein: Disponível em < http://criticanarede.com/html/cie_einstein.html > acesso em 16. setembro.2009

H. Bergson: Disponível em < http://www.consciencia.org/bergsonbochenski.shtml> último acesso em 20. setembro.2009

PRONÚNCIA CORRETA- Filósofos



Filosofia – Dicas para a pronúncia correta dos nomes




*extraído do suplemento para o professor. Filosofando: introdução à Filosofia (Por Maria Lúcia de Arruda Arantes)

** é bom lembrar que não se pode falar em pronúncia “correta” porque além das variações no próprio país temos dificuldades em pronunciar alguns sons típicos de outras línguas.

11/09/2017

ENEM 2017 Revisão (sem gabarito)

Filosofia (Ética)

  1) UNESP 2017 1ª fase - Questão 60
Nossa felicidade depende daquilo que somos, de nossa individualidade; enquanto, na maior parte das vezes, levamos em conta apenas a nossa sorte, apenas aquilo que temos ou representamos. Pois, o que alguém é para si mesmo, o que o acompanha na solidão e ninguém lhe pode dar ou retirar, é manifestamente mais essencial para ele do que tudo quanto puder possuir ou ser aos olhos dos outros. Um homem espiritualmente rico, na mais absoluta solidão, consegue se divertir primorosamente com seus próprios pensamentos e fantasias, enquanto um obtuso, por mais que mude continuamente de sociedades, espetáculos, passeios e festas, não consegue afugentar o tédio que o martiriza.  (Schopenhauer. Aforismos sobre a sabedoria de vida, 2015. Adaptado.)  Com base no texto, é correto afirmar que a ética de Schopenhauer

       a) corrobora os padrões hegemônicos de comportamento da sociedade de consumo atual. 
       b) valoriza o aprimoramento formativo do espírito como campo mais relevante da vida humana. 
       c) valoriza preferencialmente a simplicidade e a humildade, em vez do cultivo de qualidades intelectuais. 
       d) prioriza a condição social e a riqueza material como as determinações mais relevantes da vida humana. 
       e) realiza um elogio à fé religiosa e à espiritualidade em detrimento da atração pelos bens materiais.

2) ENEM 2016 1° dia - Caderno 3 - Branco - Questão 40
Sentimos que toda satisfação de nossos desejos advinda do mundo assemelha-se à esmola que mantém hoje o mendigo vivo, porém prolonga amanhã a sua fome. A resignação, ao contrário, assemelha-se à fortuna herdada: livra o herdeiro para sempre de todas as preocupações.  SCHOPENHAUER, A. Aforism o para a sabedoria da vida. São Paulo: Martins Fontes, 2005.  O trecho destaca uma ideia remanescente de uma tradição filosófica ocidental, segundo a qual a felicidade se mostra indissociavelmente ligada à

       a) consagração de relacionamentos afetivos. 
       b) administração da independência interior.
       c) fugacidade do conhecimento empírico.
       d) liberdade de expressão religiosa. 
       e) busca de prazeres efêmeros.

3) ENEM 2016 1° dia - Caderno 3 - Branco - Questão 26 
Vi os homens sumirem-se numa grande tristeza. Os melhores cansaram-se das suas obras. Proclamou-se uma doutrina e com ela circulou uma crença: Tudo é oco, tudo é igual, tudo passou! O nosso trabalho foi inútil; o nosso vinho tornou-se veneno; o mau olhado amareleceu-nos os campos e os corações. Secamos de todo, e se caísse fogo em cima de nós, as nossas cinzas voariam em pó. Sim; cansamos o próprio fogo. Todas as fontes secaram para nós, e o mar retirou-se. Todos os solos se querem abrir, mas os abismos não nos querem tragar!  NIETZSCHE, F. Assim falou Zaratustra. Rio de Janeiro: Ediouro, 1977  O texto exprime uma construção alegórica, que traduz um entendimento da doutrina niilista, uma vez que 

       a) reforça a liberdade do cidadão. 
       b) desvela os valores do cotidiano. 
       c) exorta as relações de produção. 
       d) destaca a decadência da cultura.
       e) amplifica o sentimento de ansiedade.

4) ENEM 2016 1° dia - Caderno 3 - Branco - Questão 14 
Pirro afirmava que nada é nobre nem vergonhoso, justo ou injusto; e que, da mesma maneira, nada existe do ponto de vista da verdade; que os homens agem apenas segundo a lei e o costume, nada sendo mais isto do que aquilo. Ele levou uma vida de acordo com esta doutrina, nada procurando evitar e não se desviando do que quer que fosse, suportando tudo, carroças, por exemplo, precipícios, cães, nada deixando ao arbítrio dos sentidos.  LAÉRCIO, D. Vidas e sentenças dos filósofos ilustres. Brasília: Editora UnB, 1988.  O ceticismo, conforme sugerido no texto, caracteriza-se por:

       a) Desprezar quaisquer convenções e obrigações da sociedade.
       b) Atingir o verdadeiro prazer como o princípio e o fim da vida feliz.
       c) Defender a indiferença e a impossibilidade de obter alguma certeza.
       d) Aceitar o determinismo e ocupar-se com a esperança transcendente.
       e) Agir de forma virtuosa e sábia a fim de enaltecer o homem bom e belo.

5) ENEM 2016 1° dia - Caderno 3 - Branco - Questão 11 
A promessa da tecnologia moderna se converteu em uma ameaça, ou esta se associou àquela de forma indissolúvel. Ela vai além da constatação da ameaça física. Concebida para a felicidade humana, a submissão da natureza, na sobremedida de seu sucesso, que agora se estende à própria natureza do homem, conduziu ao maior desafio já posto ao ser humano pela sua própria ação. O novo continente da práxis coletiva que adentramos com a alta tecnologia ainda constitui, para a teoria ética, uma terra de ninguém.  JONAS, H. O princípio da responsabilidade. Rio de Janeiro: Contraponto; Editora PUC-Rio, 2011 (adaptado).  As implicações éticas da articulação apresentada no texto impulsionam a necessidade de construção de um novo padrão de comportamento, cujo objetivo consiste em garantir o(a)

       a) pragmatismo da escolha individual. 
       b) sobrevivência de gerações futuras.
       c) fortalecimento de políticas liberais.
       d) valorização de múltiplas etnias.
       e) promoção da inclusão social.

    
6) UEL 2016 2ª fase - 2º dia - Filosofia - Questão 01 
Leia o texto a seguir.  Uma vez que despojei a vontade de todos os estímulos que lhe poderiam advir da obediência a qualquer lei, nada mais resta do que a conformidade a uma lei universal das ações em geral que possa servir de único princípio à vontade, isto é: devo proceder sempre de maneira que eu possa querer também que a minha máxima se torne uma lei universal.  (KANT, I. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Trad. de Paulo Quintela. Lisboa: Edições 70, 1995. p.17.)  Com base no texto e nos conhecimentos sobre a moral kantiana, disserte sobre a formulação do Imperativo Categórico.
  

7) ENEM 2015 1º dia - Caderno 4 - Rosa - Questão 09 
Trasímaco estava impaciente porque Sócrates e os seus amigos presumiam que a justiça era algo real e importante. Trasímaco negava isso. Em seu entender, as pessoas acreditavam no certo e no errado apenas por terem sido ensinadas a obedecer às regras da sua sociedade. No entanto, essas regras não passavam de invenções humanas.  RACHELS, J. Problemas da filosofia. Lisboa: Gradiva, 2009.   O sofista Trasímaco, personagem imortalizado no diálogo A República, de Platão, sustentava que a correlação entre justiça e ética é resultado de 

       a) determinações biológicas impregnadas na natureza humana. 
       b) verdades objetivas com fundamento anterior aos interesses sociais. 
       c) mandamentos divinos inquestionáveis legados das tradições antigas.
       d) convenções sociais resultantes de interesses humanos contingentes. 
       e) sentimentos experimentados diante de determinadas atitudes humanas. 

8) UEL 2015 1ª fase - Conhecimentos Gerais - Questão 22
Leia o texto a seguir.  As leis morais juntamente com seus princípios não só se distinguem essencialmente, em todo o conhecimento prático, de tudo o mais onde haja um elemento empírico qualquer, mas toda a Filosofia moral repousa inteiramente sobre a sua parte pura e, aplicada ao homem, não toma emprestado o mínimo que seja ao conhecimento do mesmo (Antropologia).  (KANT, I. Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Trad. de Guido A. de Almeida. São Paulo: Discurso Editorial, 2009. p.73.)   Com base no texto e na questão da liberdade e autonomia em Immanuel Kant, assinale a alternativa correta. 

       a) A fonte das ações morais pode ser encontrada através da análise psicológica da consciência moral, na qual se pesquisa mais o que o homem é, do que o que ele deveria ser. 
       b) O elemento determinante do caráter moral de uma ação está na inclinação da qual se origina, sendo as inclinações serenas moralmente mais perfeitas do que as passionais. 
       c) O sentimento é o elemento determinante para a ação moral, e a razão, por sua vez, somente pode dar uma direção à presente inclinação, na medida em que fornece o meio para alcançar o que é desejado. 
       d) O ponto de partida dos juízos morais encontra-se nos “propulsores” humanos naturais, os quais se direcionam ao bem próprio e ao bem do outro. 
       e) O princípio supremo da moralidade deve assentar-se na razão prática pura, e as leis morais devem ser independentes de qualquer condição subjetiva da natureza humana.

9) UNESP 2014 Vestibular de verão - 1ª fase - Conhecimentos gerais - Questão 58
Governos que se metem na vida dos outros são governos autoritários. Na história temos dois grandes exemplos: o fascismo e o comunismo. Em nossa época existe uma outra tentação totalitária, aparentemente mais invisível e, por isso mesmo, talvez, mais perigosa: o "totalitarismo do bem". A saúde sempre foi um dos substantivos preferidos das almas e dos governos autoritários. Quem estudar os governos autoritários verá que a "vida cientificamente saudável" sempre foi uma das suas maiores paixões. E, aqui, o advérbio "cientificamente" é quase vago porque o que vem primeiro é mesmo o desejo de higienização de toda forma de vício, sujeira, enfim, de humanidade não correta. Nosso maior pecado contemporâneo é não reconhecer que a humanidade do humano está além do modo "correto" de viver. E vamos pagar caro por isso porque um mundo só de gente "saudável" é um mundo sem Eros.  (Luiz Felipe Pondé. Gosto que cada um sente na boca não é da conta do governo. Folha de S.Paulo, 14.03.2012. Adaptado.)  Na concepção do autor, o totalitarismo

       a) é um sistema político exclusivamente relacionado com o fascismo e o comunismo.
       b) inexiste sob a égide de regimes políticos institucionalmente democráticos e liberais.
       c) depende necessariamente de controles de natureza policial e repressiva dos comportamentos.
       d) mobiliza a ciência para estabelecer critérios de natureza biopolítica sobre a vida.
       e) estabelece regras de comportamento subordinadas à autonomia dos indivíduos.

10) UNESP 2014 Vestibular de verão - 1ª fase - Conhecimentos gerais - Questão 57
 Segundo Franz Boas, as pessoas diferem porque suas culturas diferem. De fato, é assim que deveríamos nos referir a elas: a cultura esquimó ou a cultura judaica, e não a raça esquimó ou a raça judaica. Apesar de toda a ênfase que deu à cultura, Boas não era um relativista que acreditava que todas as culturas eram equivalentes, nem um empirista que acreditava na tábula rasa. Ele considerava a civilização europeia superior às culturas tribais, insistindo apenas em que todos os povos eram capazes de atingi-la. Não negava que devia existir uma natureza humana universal ou que poderia haver diferenças entre as pessoas de um mesmo grupo étnico. O que importava para ele era a ideia de que todos os grupos étnicos são dotados das mesmas capacidades mentais básicas.  (Steven Pinker. Tábula rasa: a negação contemporânea da natureza humana, 2004. Adaptado.)  Considerando o texto, é correto afirmar que, de acordo com o antropólogo Franz Boas,

       a) os critérios para comparação entre as culturas são inteiramente relativos.
       b) a vida em estado de natureza é superior à vida civilizada.
       c) as diferenças culturais podem ser avaliadas por critérios universalistas.
       d) as diferenças entre as culturas são biologicamente condicionadas.
       e) o progresso cultural é uma ilusão etnocêntrica europeia.

11) UNESP 2015 Vestibular de verão - 1ª fase - Conhecimentos Gerais - Questão 58
IHU On-Line – A medicalização de condutas classificadas como “anormais” se estendeu a praticamente todos os domínios de nossa existência. A quem interessa a medicalização da vida?   Sandra Caponi – A muitas pessoas. Em primeiro lugar ao saber médico, aos psiquiatras, mas também aos médicos gerais e especialistas. Interessa muito especialmente aos laboratórios farmacêuticos que, desse modo, podem vender seus medicamentos e ampliar o mercado de consumidores de psicofármacos de modo quase indefinido. Porém, esse interesse seria irrelevante se não existisse uma demanda social que aceita e até solicita que uma ampla variedade de comportamentos cotidianos ingresse no domínio do patológico. Um exemplo bastante óbvio é a escola. Crianças com problemas de comportamento mais ou menos sérios hoje recebem rapidamente um diagnóstico psiquiátrico. São medicadas, respondem à medicação e atingem o objetivo social procurado. Essas crianças que tomam ritalina ou antipsicóticos ficam mais calmas, mais sossegadas, concentradas e, ao mesmo tempo, mais tristes e isoladas.   (www.ihuonline.unisinos.br. Adaptado.)  Podemos considerar como uma importante implicação filosófica da medicalização da vida

       a) a incorporação do conhecimento científico como meio de valorização da autonomia emocional e intelectual.
       b) a institucionalização de procedimentos de análise e de cura psiquiátrica absolutamente objetivos e eficientes.
       c) a proliferação social de conhecimentos e procedimentos médicos que pressupõem a patologização da vida cotidiana.
       d) a contribuição eticamente positiva da psiquiatrização do comportamento infantil e juvenil na esfera pedagógica.
       e) o caráter neutro do progresso científico em relação a condicionamentos materiais e a demandas sociais.

12) UNESP 2013 Vestibular de verão - 2ª fase - Prova de conhecimentos específicos e redação - Ciências humanas - Questão 12
Do lado oposto da caverna, Platão situa uma fogueira – fonte da luz de onde se projetam as sombras – e alguns homens que carregam objetos por cima de um muro, como num teatro de fantoches, e são desses objetos as sombras que se projetam no fundo da caverna e as vozes desses homens que os prisioneiros atribuem às sombras. Temos um efeito como num cinema em que olhamos para a tela e não prestamos atenção ao projetor nem às caixas de som, mas percebemos o som como proveniente das figuras na tela.  (Danilo Marcondes. Iniciação à história da filosofia, 2001.)  Explique o significado filosófico da Alegoria da Caverna de Platão, comentando sua importância para a distinção entre aparência e essência.


13) UNESP 2013 Vestibular de verão - 1ª fase - Prova de conhecimentos gerais - Questão 56
Desde o início da semana, alunos da rede municipal de Vitória da Conquista, na Bahia, não vão mais poder cabular aulas. Um “uniforme inteligente” vai contar aos pais se os alunos chegaram à escola – ou “dedurar” se eles não passaram do portão. O sistema, baseado em rádio-frequência, funciona por meio de um minichip instalado na camiseta do novo uniforme, que começou a ser distribuído para 20 mil estudantes na segunda-feira. Funciona assim: no momento em que os alunos entram na escola, um sensor instalado na portaria detecta o chip e envia um SMS aos pais avisando sobre a entrada na instituição.   (Natália Cancian. Uniforme inteligente entrega aluno que cabula aula na Bahia. Folha de S.Paulo, 22.03.2012.)  A leitura do fato relatado na reportagem permite repercussões filosóficas relacionadas à esfera da ética, pois o “uniforme inteligente”

       a) está inserido em um processo de resistência ao poder disciplinar na escola.
       b) é fruto de uma ação do Estado para incrementar o grau de liberdade nas escolas.
       c) indica a consolidação de mecanismos de consulta democrática na escola pública.
       d) introduz novas formas institucionais de controle sobre a liberdade individual.
       e) proporciona uma indiscutível contribuição científica para a autonomia individual.

14) ENEM 2014 1º Dia - Caderno Branco - Questão 40
Alguns dos desejos são naturais e necessários; outros, naturais e não necessários; outros, nem naturais nem necessários, mas nascidos de vã opinião. Os desejos que não nos trazem dor se não satisfeitos não são necessários, mas o seu impulso pode ser facilmente desfeito, quando é difícil obter sua satisfação ou parecem geradores de dano.  EPICURO DE SAMOS. Doutrinas principais. In: SANSON, V. F. Textos de filosofia. Rio de Janeiro: Eduff, 1974.     No fragmento da obra filosófica de Epicuro, o homem tem como fim

       a) alcançar o prazer moderado e a felicidade.
       b) valorizar os deveres e as obrigações sociais.
       c) aceitar o sofrimento e o rigorismo da vida com resignação.
       d) refletir sobre os valores e as normas dadas pela divindade.
       e) defender a indiferença e a impossibilidade de se atingir o saber.

15) ENEM 2014 1º Dia - Caderno Branco - Questão 15
Uma norma só deve pretender validez quando todos os que possam ser concernidos por ela cheguem (ou possam chegar), enquanto participantes de um discurso prático, a um acordo quanto à validade dessa norma.  HABERMAS, J. Consciência moral e agir comunicativo. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1989.     Segundo Habermas, a validez de uma norma deve ser estabelecida pelo(a)

       a) liberdade humana, que consagra a vontade.
       b) razão comunicativa, que requer um consenso.
       c) conhecimento filosófico, que expressa a verdade.
       d) técnica científica, que aumenta o poder do homem.
       e) poder político, que se concentra no sistema partidário.

16) ENEM 2014 1º Dia - Caderno Branco - Questão 13
Panayiotis Zavos "quebrou" o último tabu da clonagem humana — transferiu embriões para o útero de mulheres, que os gerariam. Esse procedimento é crime em inúmeros países. Aparentemente, o médico possuía um laboratório secreto, no qual fazia seus experimentos. "Não tenho nenhuma dúvida de que uma criança clonada irá aparecer em breve. Posso não ser eu o médico que irá criá-la, mas vai acontecer", declarou Zavos. "Se nos esforçarmos, podemos ter um bebê clonado daqui a um ano, ou dois, mas não sei se é o caso. Não sofremos pressão para entregar um bebê clonado ao mundo. Sofremos pressão para entregar um bebê clonado saudável ao mundo."  CONNOR, S. Disponível em: www.independent.co.uk. Acesso em: 14 ago. 2012 (adaptado).     A clonagem humana é um importante assunto de reflexão no campo da bioética que, entre outras questões, dedica-se a

       a) refletir sobre as relações entre o conhecimento da vida e os valores éticos do homem.
       b) legitimar o predomínio da espécie humana sobre as demais espécies animais no planeta.
       c) relativizar, no caso da clonagem humana, o uso dos valores de certo e errado, de bem e mal.
       d) legalizar, pelo uso das técnicas de clonagem, os processos de reprodução humana e animal.
       e) fundamentar técnica e economicamente as pesquisas sobre células-tronco para uso em seres humanos.

17) ENEM 2013 1º Dia - Caderno 3 - Branco - Questão 17/ ENEM 2013 1º Dia - Caderno 2 - Amarelo - Questão 30.
A felicidade é, portanto, a melhor, a mais nobre e a mais aprazível coisa do mundo, e esses atributos não devem estar separados como na inscrição existente em Delfos “das coisas, a mais nobre é a mais justa, e a melhor é a saúde; porém a mais doce é ter o que amamos”. Todos estes atributos estão presentes nas mais excelentes atividades, e entre essas a melhor, nós a identificamos como felicidade.  ARISTÓTELES. A Política. São Paulo: Cia. das Letras, 2010.   Ao reconhecer na felicidade a reunião dos mais excelentes atributos, Aristóteles a identifica como 

       a) busca por bens materiais e títulos de nobreza.    
       b) plenitude espiritual e ascese pessoal.    
       c) finalidade das ações e condutas humanas.    
       d) conhecimento de verdades imutáveis e perfeitas.    
       e) expressão do sucesso individual e reconhecimento público. 


22/03/2017

Dualismo platônico - metáforas Mito da Caverna



Mundo Sensível X Mundo inteligível

*Interior da caverna = o que cotidianamente se apresenta a nós em seu aspecto e aparência

*Homens = habituados a viver nesse mundo de aparências

*Coisas visíveis do interior da caverna =coisas próprias do “ente” (da forma como a gente vê) – corresponde ao aspecto e aparência.

“O mundo sensível é muito enganador”

*Caminho da ascendência = contemplação do Homem.

*Saída do homem a crença da verdade. PAIDEIA (formação, educação) = Processo de ascendência. Se não desenvolvermos nossas potencialidades ficaremos estagnados.

*Movimento de subida não é simplesmente um movimento qualquer. É íngreme, desconhecemos. A primeira vez que o fazemos é dolorido (dor da alma, e não a dor dos olhos ao ver a luz) = “movimento de virada”: sair de uma posição que esteve o tempo todo e começar uma movimentação diferente requer um esforço e, consequentemente, dor. “A subida é a transformação da natureza humana”

*Fora da caverna = para Platão, é o mundo das ideias. O “ente” se mostra naquilo que são permanentemente=> essência.

*Contemplação das ideias = conhecer e reconhecer as coisas o que são as coisas em sua realidade. (consigo conhecer que a luz da caverna não é o que aparenta ser)

*Realidade = só é possível com o aparecimento da luz das ideias.


*Sol = metáfora mais importante da República = ideia fundamental que faz visível todas as outras ideias e que torna possível mostrar-se (existe uma ideia e que a partir dela existem outras, o que me leva a crer o que é o Ser – uno).


**Ascendência: diferentes moradas da alma humana

**Coisas materiais (belo particular) = primeira morada = o imediato (cativos, acorrentados; mundo dos objetos, das sombras)

**Supressão das amarras = começam a questionar as sombras, mas ainda é tudo confuso. De certa maneira estão livres, mas contemplam o imediato. Percebe que podem virar-se (para ver o fogo).

**Liberdade = domínio das essências = contemplam as coisas como elas realmente são. O deslumbramento exige paciência (para que ali possa permanecer)

**Descolocamento = belo em si = “luta” que trava e incomoda o filósofo. Ele precisa voltar. A essência é a movimentação.

[pRé] Socráticos

    FILÓSOFOS PRÉ-SOCRÁTICOS (ou físicos)   Nome Contexto   Escola Principais...